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sábado, 9 de junho de 2018

Juntos seremos mais fortes



A FLA está em harmonia com os seus irmãos insulares canarinos e agradece as suas palavras endereçadas ao dia 6 de junho. Estamos juntos e de certeza numa frente atlântica seremos mais fortes. Os ilhéus têm muito a ganhar se estiverem juntos. O atlântico é nosso. Juntos seremos mais fortes.

Contributos para a sustentabilidade dos Açores





Vivemos num mundo que está em permanente transformação
A velocidade com que as transformações ocorrem é de tal ordem que pela primeira vez na História o Homem está a educar e a instruir para um mundo que não consegue prever.

Por outro lado, no mundo em que vivemos a informação circula com nunca imaginamos. Frequentemente acompanhamos acontecimentos que estão a decorrer nas antípodas, recebendopormenores e ouvindo opiniões de pessoas que estão a acompanhar tudo em direto.

Apesar destas transformações, existem aspetos da vida que não variam e que continuam a orientar as populações.

Os países continuam a ser o resultado da vontade dos Homens e continuam a construir-se através de processos onde a cultura, a soberania a e sustentabilidade, têm uma função fundamental. Nós, como açorianos, devemos contribuir para a construção do nosso país, intervindo na dignificação da nossa cultura, intervindo no apoio a todas as ações que envolvam conquista de poder para os Açores, e contribuindo com todo o nosso engenho e saber para a sustentabilidade das nossas ilhas.

Sempre que contribuirmos para uma destas dimensões, estamos a lutar pela independência dos Açores, porque estamos a ajudar a construir um país.

Da mesma forma que os países se constroem, a sustentabilidade também pode ser construída. Nesta área nada é definitivo, hoje pobres, amanhã ricos.

Quem souber otimizar os seus recursos, aproveitar todas as pequenas e grandes oportunidades de negócio, investir criteriosamente, ser criativo, corajoso e rigoroso nos seus investimentos, está certamente contribuir para a sustentabilidade da sua Terra.

Para além de sabermos que a sustentabilidade é determinada por muitos aspetos, também sabemos que muitos destes, resultam de opções políticas que estão associadas a variadíssimos tipos de interesses.

Assim, os interesses políticos podem determinar o sucesso ou insucesso de muitos dos projetos que nos rodeiam.
Nós, como independentistas, devemos intervir denunciando tudo o que está ao serviço de interesses que em nada contribuem para a sustentabilidade da nossa região.
Por outro lado, devemos investir e criar riqueza para que o controlo da nossa economia possa dar mais garantias às gerações vindouras.

Aqui, não devemos ter preconceitos ideológicos. Devemos defender que tanto o setor privado como o público podem contribuir para a nossa sustentabilidade.
Em síntese, áreas como: o comércio, as finanças, os recursos naturais, os transportes, o empreendedorismo, a indústria, os apoios, etc, devem ser norteados pelos interesses dos açorianos.

Porém, constatam-se sinais preocupantes que nos permitem pensar que existem interesses que se sobrepõem à sustentabilidade das nossas ilhas.

Vejam, por exemplo,
Em todo o mundo o negócio da água movimenta milhões. Aqui a nossa água corre para o mar e nós bebemos água vinda de Portugal. Entretanto o exército americano passou a servir a nossa água nas suas bases, porque, segundo eles, é uma água de grande qualidade porque é pouco mineralizada.
Claro que não vamos viver do rendimento da água, mas esta situação é reveladora da lógica que devemos combater.

Energia
Nas sociedades contemporâneas o preço da energia é um fator determinante no sucesso de muitos investimentos.
Também se verifica que por toda a europa as energias alternativas têm vindo a ganhar mercado. Os países fazem gala em apresentar as percentagens de energia limpa que utilizam.

Como consequência, o número de carros elétricos tem aumentado, até porque cada país tem que respeitar a sua quota de dióxido de carbono, Aqui, o número de viaturas elétricas é residual, não havendo incentivos convincentes à sua aquisição.

Este facto não seria preocupante se não verificássemos que, na Ilha de S. Miguel, por exemplo, durante a noite produzimos mais energia do que aquela que conseguimos consumir.
Isto foi constatado há muitos anos, chegando-se mesmo a falar-se numa estação elevatória, como solução.
Porém, tudo continua na mesma e a energia continua a ir para o lixo. Esta situação é de tal forma ridícula que numa situação de máxima produção, durante a noite, mais de metade da energia produzida pela geotermia é deitada fora.
Não seria mais razoável incentivar a aquisição de viaturas elétricas que durante a noite armazenariam a energia que deitamos para o lixo e que durante o dia deixariam de produzir dióxido de carbono?
Não seria mais razoável aplicar esta energia na produção de um produto, como por exemplo a lã de rocha que se faz a partir do basalto?
Mas não. Comportamo-nos como meninos ricos que se dão ao luxo de deitar fora aquilo que poderia contribuir para a sua sustentabilidade.

Mas, como se não bastasse, brevemente o mercado da energética elétrica vai sofrer algumas transformações.
As centrais geotérmicas vão ser expandidas o que vai aumentar a sua capacidade de produção.

Também se prevê a valorização energética dos detritos.
Como resultado, vamos passar a ter uma produção geotérmica 90% superior às necessidades existentes em determinados períodos noturnos.

De toda a produção de energia geotérmica 90% vai para o lixo.
Como esta trapalhada toda, se tivermos em consideração o índice de paridade do poder de compra, os açorianos suportam a segunda energia elétrica mais cara da Europa, para além de consumirem e o gás mais caro.

A energia que desperdiçamos não é suficiente para garantir a nossa sustentabilidade, mas que ajuda, ajuda.

Assim, podemos ver a falta de preocupação que existe para com os nossos interesses.

O que devemos condenar convictamente é esta atitude de despesista.

Sabendo que o custo da energia está a montante de muitos investimentos é legítimo pensar-se que assim estamos a comprometer muitas oportunidades de negócio.

Mar
O mar é um recurso que tem despertado grande curiosidade, envolvendo grupos que guardam religiosamente os resultados das suas pesquisas.

Muito se tem escrito sobre a sua importância na criação de riqueza e muitos têm sido os números que têm vindo a público,porém, mesmo sem sabermos o que está em jogo, já nos foram dizendo que não seremos tidos nem achados na exploração do nosso mar.

Sempre que Portugal perspetiva uma fonte de rendimento considerável vem ao de cima a sua matriz imperial e como se fosse o dono do mundo não olha a meios para garantir “o saque”. Sempre foi assim.
Comércio

O Comércio é cada vez mais controlado por grandes grupos que gerem grandes centrais de distribuição.
Para que os açorianos possam intervir nessa área têm que ser detentores das mesmas armas.

Como consequência, se pretendemos dinamizar o consumo dos nossos produtos, temos que criar uma central de compras de produtos açorianos e temos que ter uma política de distribuição que facilite a comercialização destes mesmos produtos.

Desta forma, podemos ganhar espaço no mercado interno e podemos exportar. Facilitar as trocas entre ilhas será sempre um fator de desenvolvimento, principalmente para as ilhas mais pequenas, porque assim, poder-se-ão viabilizar muitos negócios.

Produzir para um mercado regional, pode fazer a diferença.
Não bastam campanhas do tipo “Consumam Produtos Açorianos” é fundamental que seja adotada uma atitude mais interventiva.

Ainda dentro da área do comércio, sabendo que o Estado tem um peso relativo muito significativo na nossa economia, deveríamos ter conhecimento contributo que este tem dado para o nosso comércio.

Desta forma, deveriam ser divulgados os montantes que a região paga com um IVA de 18% e os montantes pagos com um IVA de 23%, bem como as áreas em que estes montantes são pagos.

Estes dados deveriam ser divulgados pelas Direções Regionais, no caso do Governo dos Açores, e pelas Câmaras Municipais, no caso do poder autárquico.
Quem não deve não teme, diz o povo, por isso não encontramos razões válidas para que estes valores não sejam conhecidos.

Finanças
O mundo financeiro tem-se revelado um desastre. Sendo uma área onde a confiança é determinante. Colocar as nossas poupanças e as nossas necessidades de financiamento nas mãos de estranhos tem-se revelado pouco adequado.
Como resultado muitos açorianos já sentiram efeitos não desejados.

No passado recente, os Açores foram detentores de um Banco e de uma Seguradora. Na altura, com argumentos muito duvidosos criou-se um clima de desconfiança, havendo quem defendesse que as nossas instituições financeiras jamais sobreviveriam no mundo global.

O tempo encarregou-se de demonstrar que tudo não passou de uma patetice. Continuam a existir bancos com a mesma dimensão que honram os seus compromissos e o nosso banco passou a fazer parte de um grupo que, só sobreviveu porque teve uma injeção de dinheiros públicos, para além de ter penalizado muitos açorianos que viram as suas poupanças comprometidas.

A defesa de uma instituição financeira açoriana é uma necessidade que se impõe.
Ninguém melhor do que os nossos pode merecer a nossa confiança.

Façam uma instituição com capitais públicos, façam uma instituição capitais com mistos, mas façam-na.

Transportes
Quando se vive numa região insular os transportes aéreos e marítimos assumem particular importância porque são a porta de entrada e saída para a nossa terra, para além de garantirem a ligação entre ilhas.

Atentos a esta particularidade, não devemos estar dependentes de terceiros, mas também não podemos deixar que se aproveitem desta situação para criarem ninhos de clientelismo. Devemos ter uma empresa de aviação, com base nos Açores, que garanta as ligações entre ilhas, as ligações com os nossos emigrantes e a ligação a Portugal.

O resto só se justifica se der lucro.
O que se passa com a Sata é uma vergonha, passivos monstruosos, rotas ruinosas, aquisições tecnicamente duvidosas, base para alguns aviões em Lisboa, mesmo sabendo que neste aeroporto as taxas são mais caras, etc, etc. Nada disto contribuiu para a saúde financeira dos Açores, por isso não pode ter a nossa concordância.

Ao nível da Indústria, verificamos
Muita da indústria açoriana está a desaparecer. Alguma porque entrou em fim de ciclo e tornou-se inviável. Porém, outras industrias deveriam estar pujantes e só não estão por razões politicas.

Vejamos por exemplo o caso dos refrigerantes e da cerveja. Esta indústria apresenta produtos de reconhecida qualidade. Sem querer denunciar os culpados, apesar de os conhecer, é com enorme tristeza que constatamos que um negócio altamente lucrativo em qualquer parte do mundo, aqui está agonizando.

Nesta fase, quando o turismo começa a ter um crescimento significativo, esta e outras indústrias poderão encontrar um novo mercado que não pode ser esquecido.
Os políticos que andaram a brincar aos industriais com as empresas açorianas têm o dever de arranjar forma de as sanear financeiramente.

Isto de gerir o dinheiro dos outros de forma ruinosa deveria ter um preço. Mas não tem tido e o resultado está aí. Cometem-se as maiores barbaridades e tudo continua como se nada tivesse acontecido.

A manter-se esta lógica, seremos uma Região adiada.
Muito mais poderia ser referido acerca da sustentabilidade das nossas ilhas e da necessidade de passarmos a encará-la como um investimento estratégico.

Mais do que betão, o que necessitamos é de empregos e negócios para que os nossos filhos não partam, porque, caso contrário, seremos cada vez menos.

Acredito que Portugal tem receio de nos ver ganhar sustentabilidade e acredito que para Lisboa assim está tudo bem. Compete-nos a nós alterar esta lógica, ganhar ânimo, e ir à luta.

Temos que otimizar todos os nossos recursos e criar o máximo de riqueza, porque só assim seremos livres.
Queremos uns Açores sustentáveis

Dr. Rui Machado de Medeiros, Presidente do diretório da Frente de Libertação dos Açores

quinta-feira, 7 de junho de 2018

Europa das regiões e o papel da FLA nos Açores



06 junho 2018, Hotel VIP, Ponta Delgada




Gostava de vos falar do referendo de 1 de outubro do ano passado para a formação de uma republica independente na Catalunha, de falar-vos do sonho de uma Europa das regiões e, também, do papel da FLA no processo de tornar esse sonho realidade nos Açores.

Tenho muito orgulho em ter participado no referendo de 1 de outubro na Catalunha, uma participação individual e simples, mas também uma participação em nome da FLA e em nome do direito dos açorianos à sua autodeterminação. Na Catalunha testemunhei um povo com a certeza de estar no lado correcto da história, um povo corajoso, militante e sem medo. Um povo, pelo menos no dia do referendo, não refém de partidos ou ideologias. Um povo calculadamente pacifico, mas nunca subjugado.

A mesa de voto à qual fui dar apoio tinha cerca de uma centena de voluntários dispostos a defender as urnas. O nosso papel quando se começavam a ouvir as sirenes das carrinhas negras e prenhas de agentes da violência, era formarmos uma massa humana, compacta, contra a entrada de acesso à mesa de voto. Toda a tarde, num banco de jardim perto da porta, estavam sentadas 3 senhoras de mais idade, cabelos brancos, e um senhor da mesma geração, com os seus casacos já de inverno e seus guardas chuvas. Uma das muitas vezes que as carrinhas passaram, mas a primeira em que pararam, para meu grande espanto o grupo do banco de jardim, já depois de estarmos todos compactados em frente à porta, levantou-se e veio serenamente posicionar-se na primeira fila, a mais exposta. As pessoas pediram-lhes que se posicionassem mais a meio da massa humana, menos expostos, mas não, insistiram que ficariam na primeira fila. Uma imagem, um acto de coragem, uma entrega a uma causa, que nunca esquecerei. Aquilo que se viu na televisão foi exactamente o que testemunhei, uma Espanha centralista, colonialista, violenta, opressiva.

Mas a Espanha não está sozinha. A Europa foi também construída, em parte, tendo por base essa cultura centralista, colonialista, violenta e opressiva, uma cultura que não desaparece numa geração, nem em duas. Na minha opinião, essa não é a Europa para os Açores. Não queremos uma Europa das capitais, de Lisboa, Madrid, Paris, Berlim e Bruxelas. A nossa Europa, a Europa a que pertencemos, é uma Europa das regiões, dos povos, das línguas, da democracia. E neste momento ela já floresce por todo o continente europeu, já cheira a futuro. Nas ilhas Faroé, onde governam nacionalistas, em breve farão um reverendo para que possam possuir a sua própria constituição. Na Escócia governam os nacionalistas e por pouco não ganharam um referendo que lhes daria a independência. Na Córsega os nacionalistas ganharam as últimas eleições. Nas Canárias, onde a FLA esteve em visita oficial este ano, governam nacionalistas. Na Catalunha e noutras nações de Espanha, é o que todos sabemos. Nas ilhas da Polinésia francesa, as forças independentistas conseguiram o seu primeiro deputado eleito para a assembleia nacional francesa. Em Flandres, na Sardenha, na Bretanha francesa, na Occitânia, na Bavaria, no Tirol, na cidade estado de Veneza.... E quase sem excepção, o fortalecimento destas forças soberanistas, pela Europa fora, têm criado, nestas nações, uma dinâmica económica positiva, uma maior participação activa democrática e um enriquecimento e preservação das culturas destes povos.

Nos Açores, a constituição portuguesa, a que somos obrigados a obedecer, não permite que se dê aos açorianos uma escolha democrática que inclua partidos açorianos ou nacionalistas. Assim, neste momento, só a FLA se apresenta com clareza moral para, nos Açores, liderar essa evolução, que ocorre na Europa. Só a FLA pode levar os Açorianos a participarem na construção desta nova Europa, pois como sabemos, todos os outros, no horizonte da política nos Açores, são peças de um xadrez que se joga em Lisboa, mesmo que o tabuleiro esteja cá, e atenção, nunca são as peças do xadrez que ganham o jogo. Mas nos Açores, para a FLA, os açorianos não são peças de um jogo, são jogadores de pleno direito.

Daqui a uns dias, a dez de junho, o presidente de Portugal, um velho do Restelo, vem cá hastear uma bandeira de Portugal de 3 por 2 metros, na praça Gonçalo Velho Cabral, que Bolieiro vai fazer o favor de iluminar à noite, incrível. Um acto de puro colonialismo que os lacaios de Lisboa aceitam. Mas como velho do Restelo que é, o presidente de Portugal, como sempre se fez noutras colónias, vai enfiar na nossa carne esse símbolo de um império colonial e retorna à sua capital onde há séculos se vive à custa do que é de outros povos, que é o que pretendem fazer agora com o Mar dos Açores. Mas cuidado velhos do Restelo, aqui nos Açores, quando nos ferem sangramos lava quente, demolidora e nela renascemos, sempre…

Pois no dia 10 de junho lá estarei, na praça Gonçalo Velho Cabral, respeitosamente, mas com a nossa bandeira. Os açorianos precisam de saber que não estão sós e abandonados a essa cultura colonialista, centralista. Precisam de saber que a FLA está aqui para proteger e salvaguardar a soberania dos Açores, a cultura açoriana e os meios de sustentabilidade dos Açores.

Não tenhamos dúvidas, os Açores precisam da FLA e a FLA precisa de cada um de nós. Plagiando um presidente norte americano, digo-vos que esta não é a altura de nos perdermos na pergunta sobre o que a independência pode fazer por nós, mas sim o que podemos fazer pela independência dos Açores. E faz-se tarde. Está na hora de nos pormos a caminho porque, meus caros, a independência dos Açores não é um ponto de partida, é um ponto de chegada e, repito, para lá chegarmos os Açores precisam de cada um de nós...




Um abraço Dr. Rui Medeiros, um abraço a todos,

Viva a FLA e vivam os Açores livres.




Dr. António José de Almeida

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Pés de barro




Os “cabouqueiros” do regime autonómico foram enganados, repetiu-se assim, a sinistra sina do Povo Açoriano. Ao longo da sua história os Açores nunca conseguiram obter de Lisboa, qualquer vantagem política, foram sempre sujeitos a um regime de submissão. A submissão é uma das características mais salientes da subserviência. A população dos Açores foi estruturada a partir da ideia de fazer dos Açores uma colónia.

Foi como colónia, que os Açores foram sempre tratados, o objetivo do colonizador foi de tirar o máximo proveito. Estabeleceu-se que os colonos (pessoa que emigra para povoar e/ou explorar uma terra distante) deveriam pagar uma renda pelo uso da terra. Este pagamento continua válido nos dias de hoje, a forma é, que é diferente.

O regime da sujeição deixou marcas no Povo Açoriano, que são difíceis de remover, daí a dificuldade que existe, em libertar-se do passado tenebroso.

O desejo de afirmação do Povo Açoriano, através de maior liberdade de ação, foi sempre torpedeado pelo poder colonial, as tentativas que fez, foram, sempre, neutralizadas.

A revolução de 1974, foi a grande oportunidade da sua vida, para se libertar do regime da submissão. O Povo gritou independência, que as elites políticas açorianas haveriam de suster, com base na promessa de concessão de um regime autonómico.

O regime autonómico foi criado, o Povo Açoriano acreditou nele, sem reservas, baseados na ideia de que a interferência de Lisboa deixavam de existir. Cedo, se percebeu que não era assim, o regime autonómico era controlado/vigiado por Ministros da República, com base no argumento da afirmação da soberania. As vicissitudes por que os Açores têm passado são conhecidas, não vale a pena enumerá-las, basta que se tenha a ideia de que, o regime autonómico não serve os interesses dos Açores, porque tem pés de barro.

O regime autonómico foi criado, propositadamente, com pés de barro, porque havia a necessidade de acautelar os interesses da “metrópole”. A “metrópole”, historicamente falando, nunca deu nada às suas colónias, limitou-se a tirar o máximo de proveitos, era esse o seu maior objetivo.

Foi com o intuito de jogar pelo seguro, que a “metrópole” definiu, constitucionalmente o Estado como unitário. O regime autonómico, nestas circunstâncias, não tem qualquer importância, está assente em pés de barro.

A irrelevância do regime autonómico tem sido, habilmente, camuflada, com a ideia de que está na origem do surto de crescimento e desenvolvimento económico dos Açores. É errada esta ideia, basta perguntar, donde veio o dinheiro, foi resultado da criação de riqueza? Não foi, foi dinheiro que chegou aos Açores, em envelopes provenientes da União Europeia. Teria sido um resultado excelente, se o crescimento e desenvolvimento dos Açores estivesse ligado à criação de riqueza. A única vantagem conseguida, resulta do fato de ter sido o poder executivo dos Açores, quem fez as escolhas de investimento.

Os apoios financeiros da União Europeia não estão a ser devidamente valorizados, tem-se procurado fazer crer, que são resultado da influência do regime autonómico. Uma habilidade política.

O regime autonómico já deu provas do que vale, não vale nada, a preocupação em escondê-lo tem sido muito grande, porque não se sabe, como explicar ao Povo Açoriano a atitude passada e recente dos políticos eleitos. Esta dificuldade, tem originado uma fuga para a frente, baseada na melhoria das condições de vida dos açorianos. Tudo o que tem pés de barro acaba, mais cedo ou mais tarde, por revelar as suas fragilidades.

O tempo tem um efeito demolidor para tudo aquilo, que tem pés de barro.




Adelino Mota Oliveira 

quarta-feira, 7 de junho de 2017

O arquipélago que não cresce.


O dia 6 de junho foi um dia que marcou a História dos Açores de uma foram determinante. A sua influência foi de tal ordem que podemos afirmar que, no passado recente, temos antes do 6 de junho e depois do 6 de junho. 

Assumindo-se como um momento tão particular é de elementar justiça que prestássemos homenagem às pessoas que estiveram na sua génese e realização. 


Olhando atentamente para as imagens que nos são disponibilizadas, vemos muitas pessoas que conseguimos identificar. Vemos madeireiros, lavradores, donas de casa, empregados de escritório, lojistas, donos de pequenos estabelecimentos comercias, estudantes, advogados, proprietários agrícolas, donos e empregados de restaurantes, mestres da construção civil, pescadores, condutores de carros de praça, professores e muitas outras pessoas. Todos estes cidadãos tiveram, de uma forma espontânea uma atitude corajosa, marcando uma posição relativamente à situação politica que então se vivia. Nesse dia foi possível constatar que, perante a determinação de um povo, o poder pouco ou nada pode fazer, a não ser recorrer ao uso da força, podendo assim adiar a solução do problema. 


Mas afinal, quem foram estas pessoas que saíram à rua?
Em termos muito simples pode dizer-se: - Foi o Povo Açoriano. 


Mas que povo é este?
A História do Povo Açoriano está por fazer e sempre que se toca neste tema muitas são as dificuldades que se levantam. Temos algumas instituições que se dedicam à investigação e divulgação da História, mas pouco ou nada se sabe sobre o Povo Açoriano. Se olharmos para os estudos e publicações existentes, verificamos que, a sua grande maioria, se debruçam sobre as governanças, as elites urbanas e sobre os episódios em que a História de Portugal se fez nos Açores. Porém, em termos de abrangência temporal, aquilo que tem sido estudado aborda períodos relativamente curtos e preferencialmente mais recentes. 


Não podemos esquecer que estamos nestas ilhas há quase 600 anos. Temos 22 gerações de açorianos que deram origem a 80.000 famílias. Estas descendem de cerca de 2000 que povoaram as diferentes ilhas e que para aqui foram abandonadas, entregues à sua sorte e ao seu engenho. 


As populações iniciais, apesar de predominantemente ibéricas, apresentavam um número considerável de indivíduos provenientes de outras nações, nomeadamente flamengos, italianos, franceses, britânicos, mouros, judeus, etc. No isolamento próprio de quem vive em ilhas, nós por aqui fomos casando, tendo filhos e morrendo, relacionando-nos sempre entre nós, verificando-se pontualmente a chegada de um novo habitante. Sozinhos choramos e enterramos os nossos mortos sempre que os fenómenos telúricos nos atingiram e no dia seguinte voltamos para a labuta da terra, porque outros tinham sobrevivido e tinham que ser alimentados, pois a vida continuava. Aqui arranjamos formas próprias de religiosidade e aprendemos a recear o que vinha de fora.


Do exterior vinham piratas, que faziam reféns e exigiam resgastes, ou então, indivíduos que levavam o fruto do nosso trabalho. - Não podemos esquecer que sempre fomos contribuintes líquidos do reino.


Esta luta pela sobrevivência moldou o nosso caráter tornando-nos resistentes, determinados e acima de tudo pacientes. Porém, muitos foram os momentos em que as condições de sobrevivência foram de tal forma precárias, que só tivemos uma solução, partir.


Em 1822, quando a população dos Açores era de cerca de 224.000 habitantes, o jorgense João Soares de Albergaria, na sua Coreografia Açórica defendia que sendo as nossas ilhas muito férteis e comparando-as com algumas regiões de Portugal, nós deveríamos ter mais de um milhão de habitantes. Também refere que tal nunca aconteceu porque a emigração era considerável. Nesta mesma publicação revela três momentos em que se verificaram fluxos migratórios consideráveis: em 1550, praticamente 100 anos após o início do povoamento, 300 casais foram para o Maranhão; em 1760, 800 partiram para o Rio Grande do Sul e em 1812 mais de mil casais foram para o Rio de Janeiro.
Em virtude de termos que partir para poder sobreviver a população das nossas ilhas nos últimos 200 anos manteve-se estável, rondando os 250.000 habitantes, havendo uma ligeira subida em 1960 (327.000 habitantes). 


É de salientar que em 1864 Portugal tinha cerca de 4 milhões de habitantes e os Açores 249.000. Hoje, Portugal tem mais do dobro e os Açores diminuíram ligeiramente a sua população.


A manutenção destes valores, foi consequência de um êxodo em massa, em números assustadores. Falar em emigração é um eufemismo. Claro que as pessoas partiram porque não encontram meios de sobrevivência e isto tem sido uma constante na nossa História. É difícil aceitar que, com solos reconhecidamente férteis, e sabendo que a agricultura foi um dos pilares da nossa economia, a população deste arquipélago nunca tenha aumentado. Em contrapartida no estrangeiro existem milhões de açorianos e descendentes. 


Então, dever-se-á perguntar: - Onde está o fruto do nosso trabalho?
1 - As populações viveram sempre de uma forma modesta
2 - A maioria partiu para não morrer à fome
3 - O património construído é modesto;
4 – Não existem relatos de vidas faustosas.
Quem ficou com o produto do trabalho de 22 gerações de açorianos?
Investigar e escrever esta História vai revelar aspetos muito desagradáveis da nossa vivência. Então o Poder prefere ignorar o passado e inventar uma História cheia de heróis e momentos épicos para entreter o povo. 


Nestas circunstâncias, negar a um Povo a possibilidade de conhecer a sua História é equivalente a viver com uma pessoa a quem se roubou toda a vida, mas que sofre de amnésia. Então, sempre que a pobre criatura que toda a vida foi roubada tenta saber alguma coisa do seu passado recorre a quem lhe sugou o fruto do seu trabalho e pergunta-lhe: - Como é que as coisas se passaram?
Durante os últimos 40 anos, com a chegada da autonomia, foram introduzidas algumas alterações politicas e administrativas e seria normal que a população aumentasse. Em vez disto, as ilhas de Santa Maria, Flores, Graciosa, S. Jorge e Pico, perderam população, Faial, Terceira e S. Miguel, tiveram ligeiras flutuações, verificando-se que em S. Miguel os concelhos da Povoação e Nordeste estão a desertificar. 


Em sínteses, estamos na mesma. Se não aumentamos a população é porque não conseguimos criar condições para que as pessoas se fixem, o que significa que a emigração continua a ser a solução para muitos de nós.
Mas este paradigma não deveria ter sido alterado?
Não foi esta a promessa dos autonomistas?
Uma região sem pessoas nunca poderá desenvolver-se e sem desenvolvimento económico não se conseguem criar condições que permitam a sustentabilidade.
Como Portugal passa a vida a apregoar que somos uma região europeia, talvez fosse interessante compararmos a nossa situação com um arquipélago que apresenta aspetos semelhantes aos nossos, Malta. 


Independente desde 1964, tornou-se uma república 1974, entrou para a União Europeia em 2004. Tem uma área 316 Km 2, mais pena que a ilha Terceira, o que contrasta com os 2.346 km² dos Açores. Malta produz somente 20% dos alimentos que consome, tem poucas reservas de água doce e não tem fontes próprias de energia. Os seus principais parceiros de exportação são a Alemanha 13,3%, Singapura 12,5%, França 11,4%, Estados Unidos 9,4%, Hong Kong 6,5%, Reino Unido 5,9%, Itália 4,8% (dados do ano 2009)
Em 1974 a população de Malta era de 301.000 habitantes, aumentando para 431.000 em 2015, o que significa dizer que, em 43 anos aumentou a sua população em 130.000 habitantes. Em contrapartida os Açores entre 1970 e 2011, ou seja, em 41 anos perdeu 40. 887 habitantes. 


Mas voltemos ao nosso dia. No pós 6 de junho a nossa inexperiência politica conjugada com a cultura imperial de Lisboa, geraram este sistema autonómico que é uma aberração sem equivalente na Europa. Neste momento estamos à mercê da vontade de Portugal, pois sempre que o representante do império, quer anular uma iniciativa legislativa que possa incomodar Lisboa, pede um parecer para o tribunal constitucional e este encarrega-se de legitimar a intervenção de um personagem que não foi eleito por nós, mas que na essência é o dono disto tudo. 


Nestas condições o que é que resta ao poder regional?
Gerir esta grande Câmara Municipal, bater com o pé no chão em coisas sem importância para parecer que estão do lado de cá a lutar contra o lado de lá, mas sem nunca mexer no essencial, distribuir pelouros pelos amigos e receber as visitas com o rabinho a abanar. Tudo isto é indiciador de falta de projeto. 


Como não sabem para onde vão nem conseguem distinguir o essencial do acessório, vão discutindo a indumentária dos deputados, vão-se provocando em pleno plenário e a luta politica vai assumindo um caráter paroquial que desce ao nível da discussão clubística, onde a razão é um elemento secundário. 


Desta forma, Portugal esfrega as mãos de contente.
Em síntese, criou-se uma autonomia que é uma farsa constitucional, gastou-se o dinheiro que veio da Europa equipando-se os Açores com condições mínimas de sobrevivência, mas não se criaram mecanismos para fixar as populações. Sem pessoas não somos nada. Tal como defendeu João Soares de Albergaria, devíamos ter um milhão de açorianos residentes nos Açores. Em vez disto, estamos a perder população e não existem condições institucionais para inverter esta tendência. 


A autonomia, tal como está construída, não está conseguindo libertar os açorianos da vontade de Portugal. Uma forma eficaz de controlar é mantendo-nos pobres.
Durante os últimos 40 anos o mundo mudou muito e nós também mudamos. Porém, a nossa posição relativa dentro do mundo a que pertencemos continua a ser a mesma. Olhando para uma série de indicadores, verificamos que o nosso arquipélago continua na cauda da Europa em muitos aspetos. 


Mais do que nunca, o conformismo e a descrença têm ganho espaço. 


Compete-nos a nós independentistas lutar para que esta situação se inverta. 


Sempre colocamos os Açores acima dos nossos interesses pessoais, por isso estamos aqui. Este património faz com que alguns setores da sociedade olhem para nós como o ultimo reduto da defesa das nossas ilhas, por isso, não podemos falhar.


Rui Machado Medeiros, 6 de Junho 2017
 

6 DE JUNHO : 1975 - 2017




Hoje assinala-se o 42º aniversário da grande manifestação popular do «6 de Junho» , a qual consistiu num vibrante grito de revolta contra o poder centralista e colonialista de Lisboa.
Muitos (ainda hoje!) reivindicam para si a paternidade desta manifestação, mas a verdade é que confluíram para ela muitas motivações, muitos interesses e principalmente muitos ideais.
Quer partidos, quer organizações sócio-laborais, grupos autonomistas e independentistas, ex-militares, retornados do Ultramar, desempregados, emigrantes, pequenos proprietários, lavradores, empregados do comércio, etc, aproveitaram o ensejo para marcarem a sua posição e combaterem o inimigo comum : o poder político (não-democrático) exercido directamente através da ex-capital do Império.
Lembramos, a propósito, que Portugal, à data, vivia um período de efervescência revolucionária (o famoso PREC) onde se digladiavam várias facções políticas, algumas delas manifestamente totalitárias, esquerdistas, fascistas e social-fascistas.
Enquanto Portugal (Madrasta-Pátria para os Açorianos) distribuía, no antigo Ultramar, «independências» a torto e a direito, aqui nos Açores (e na Madeira) a ideia era manter o «statu quo» político-administrativo até então vigente.
Ora, os Açorianos e os Madeirenses, secularmente desprezados, abandonados, espezinhados e explorados pelo Terreiro do Paço, viram chegada a sua hora de libertação.
Não é por acaso que a ideia de independência dos Açores foi de novo recuperada e animou o nosso imaginário e o nosso desejo de Liberdade e Democracia.
Cartazes, tarjas, slogans e palavras de ordem independentista tomaram conta da manifestação e correram mundo.
Se naquela época o MFA - assim como todos os partidos portugueses, desde o CDS até à UDP e MRPP - proclamavam o direito inalienável dos povos à independência, era mais do que natural (e até expectável) que os militares revolucionários e os políticos portugueses respeitassem todos aqueles que nos Açores defendiam essa ideia.
Não foi o que aconteceu. Muito cedo o MFA - e todo o poder em Lisboa - combateu encarniçadamente os independentistas (e até autonomistas), quer através dos militares aqui posicionados, quer através de forças repressivas do Estado ou mesmo através de movimentos políticos aqui instalados e que eram autênticas correias de transmissão de Lisboa e dos seus interesses.
Se na Manifestação do 6 de Junho, o ideal independentista foi um poderoso catalisador, também é verdade que muitos interesses egoístas e de grupo foram à boleia deste sismo social e político. E foram os representantes desses interesses que fizeram abortar o movimento natural da independência e foram eles que mais tarde colheram os proveitos.
O desejo, a vontade e mesmo o sonho da «Livre Administração dos Açores pelos Açorianos» já vinha do final do século XIX, mas foi graças ao 25 de Abril de 1974, que foi possível recuperar essa divisa e até mesmo concretizá-la.
E foi essa circunstância que confundiu e fez desconfiar muita gente, pois dum dia para o outro, viram antigos "salazaristas", "marcelistas", beneficiários e serventuários do Terreiro do Paço a bandear-se hipocritamente para o campo da autonomia e até da independência.
Ora essas conversões «à la minuta» é que foram o «pecado original» do Movimento Independentista.
Em todas as revoluções - e o 6 de Junho de 1975 também o foi - existem os heróis, os mártires,os idealistas, os esquecidos, os oportunistas e os traidores. E, decorridos quarenta e dois anos, tudo isso se verificou. E tudo isso está registado.
Hoje, está à vista de quem estuda estes fenómenos sociais e políticos, que foram os oportunistas e os traidores, que melhor levaram a "água ao seu moinho". Estão bem na vida. Muitos enriqueceram. Bem reformados. Bem subsidiados e bem medalhados por Lisboa.
Mas a História ensina-nos que as maiorias de hoje serão as minorias de amanhã. E vice-versa.
O Processo Histórico - não a História rendilhada, ficcionada e subjectiva que alguns passam o dia a contar e a escrever - é inexorável.
E o 6 de Junho foi (e é!...) uma etapa importante nesse processo.
@ Ryc

Líder independentista dos Açores considera a autonomia uma "farsa institucional"



O líder da Frente de Libertação dos Açores (FLA) considerou hoje que o regime autonómico é uma "farsa constitucional", lamentando que não se tenha tido a capacidade de combater a desertificação das ilhas.

“Criou-se uma autonomia que é uma farsa constitucional, gastou-se o dinheiro que veio da Europa equipando-se os Açores com condições mínimas de sobrevivência, mas não se criaram mecanismos para fixar as populações. Sem pessoas não somos nada”, declarou Rui Medeiros.

O dirigente independentista falava em Ponta Delgada, na ilha de São Miguel, num jantar evocativo do 42.º aniversário da manifestação de 06 de junho de 1975, que juntou cerca de 10 mil pessoas, predominantemente lavradores, que se batiam por diversas revindicações e contra o regime de então de Lisboa.

A concentração acabou por ficar conotada com a defesa da independência dos Açores e com a FLA, cujo fundador e líder histórico, José de Almeida, faleceu a 01 de dezembro de 2014.

O líder da FLA referiu que os Açores estão a “perder população e não existem condições institucionais para inverter esta tendência” no arquipélago.

Rui Medeiros afirmou que a autonomia, “tal como está construída, não está a conseguir libertar os açorianos da vontade imperial de Portugal”, salvaguardando que “uma forma eficaz de controlar é mantendo [os açorianos] pobres”.

“Durante os últimos 40 anos, com a chegada da autonomia, foram introduzidas algumas alterações politicas e administrativas e seria normal que a população aumentasse.

Em vez disso, as ilhas de Santa Maria, Flores, Graciosa, São Jorge e Pico perderam população, Faial, Terceira e São Miguel tiveram ligeiras flutuações, verificando-se que em São Miguel os concelhos da Povoação e Nordeste estão a desertificar”, declarou.

Rui Medeiros referiu que os Açores “estão na mesma” e que se não se aumentar a população “não se consegue criar condições para que as pessoas se fixem”, o que significa que a emigração “continua a ser a solução para muitos”.

Rui Medeiros acusou a classe política dos Açores de “nunca mexer no essencial”, limitando-se a “distribuir pelouros pelos amigos” e “receber as visitas com o rabinho a abanar”, com base numa atitude que é “indiciadora de falta de projeto”.

Rui Medeiros considerou ser de “elementar justiça” que se prestasse hoje homenagem às pessoas que estiveram na génese e realização da manifestação de 06 de junho.

Publicado no Açoriano Oriental de 06 de Jun de 2017

terça-feira, 7 de junho de 2016




Há 41 anos o povo saiu à rua e deu início a um processo inacabado que mudou o rumo da história das nossas ilhas.

A sociedade açoriana de então vivia momentos de grande intranquilidade e insegurança. Os acontecimentos surgiam de uma forma descontrolada e a um rimo a que não estávamos habituados.

Novas ideias surgiam, novos velhos projetos, esmagados pelo centralismo de Lisboa, voltavam a ganhar sentido e um grupo de cidadãos começou, novamente, a sonhar com a velha ideia da livre administração dos Açores pelos açorianos.

Sem grande formação politica, fruto de mais de meio século de obscurantismo, as populações locais não estavam preparados para enfrentar as adversidades que entretanto iam surgindo e que impediam o normal desenvolvimento de um projeto politico historicamente ambicionado. Os adversários da livre administração dos Açores pelos açorianos estavam atentos e de uma forma ativa fizeram sentir a sua vontade, dificultando a regular defesa de um projeto político que tinha sido iniciado no final do século XIX e que Lisboa tinha esvaziado completamente a sua essência, reduzindo o poder autonómico a uns simples gabinetes desprovidos de meios e de capacidade de intervenção, fazendo com que tudo tivesse voltado ao início, o que significa dizer que Portugal tinha conseguido impor a sua vontade centralizadora.

Neste contexto, o povo saiu à rua a seis de junho de 1975 e tudo mudou. Com o tempo os centralistas tornaram-se autonomistas, os anti-autonomistas desapareceram, o projeto independentista ganhou consistência, a política passou a estar no centro da vida social das populações, muitas famílias dividiram-se como consequência das opções políticas de cada um, enfim, a revolução tinha chegado aos Açores.

Nos dias que se seguiram os centralistas tentaram atenuar os efeitos do processo que tinha sido iniciado, mas as populações reagiram e agruparam-se em torno dos independentistas. Foi um momento de clivagem: quem não era independentista era contra, não havia lugar para a neutralidade. Assim, a Frente de Libertação dos Açores, passou a ser olhada como a organização em quem os açorianos depositaram as suas espectativas.

A experiência revela-nos que o Ser humano, quando confrontado com a adversidade procura segurança junto daqueles em quem confia. Foi assim há 41 anos. Na sociedade de então existiam muitas instituições formalmente constituídas a quem as populações poderiam solicitar apoio, sociedades, partidos, clubes, a igreja e tudo o que a ela está associado, etc, porém foi junto dos independentistas que a sociedade se refugiou de forma a procurar segurança. Este facto é muito significativo e confere-nos grandes responsabilidades históricas e políticas, porque perante a adversidade fomos considerados pessoas de bem, em quem se podia confiar, o que nos permite concluir que fomos reconhecidos como um porto de abrigo. Historicamente este facto é muito importante porque comprova que nos momentos difíceis, nós independentistas, nunca viramos as costas aos açorianos. Este legado político, confere-nos grandes responsabilidades.

Esta condição de guardiões da açorianidade é muito enobrecedora, porém, no presente, não nos permite ter grande capacidade de intervenção. A nossa existência pode transmitir segurança às populações, e este aspeto é importante, mas é muito redutor limitarmos a nossa intervenção a este domínio. Devemos sentir orgulho em vermos reconhecido o nosso papel como defensores das nossas ilhas, mas também devemos ter um papel mais ativo de forma a contribuirmos para a construção de uns Açores independentes.

Passados 41 anos muito mudou e muitas destas mudanças interferem direta ou indiretamente connosco. O mundo tornou-se mais pequeno, nós açorianos passamos a ter outra mundividência, os grandes conflitos são civilizacionais, os Estados partilham poder, a Europa vacila entre a união e a fragmentação, a informação circula a uma velocidade alucinante, a noção de território cada vez mais integra o mar, Portugal tornou-se um protetorado da Europa, (mas sempre grande com os pequenos e humilde com os grandes), os Estados Unidos passaram de maior importador de hidrocarbonetos para exportador, o canal da Guatemala irá permitir que navios de grande calado atravessem do Pacifico para a o Atlântico, produtos como a água passaram a ter outro valor, recursos minerais são encontrados no mar, o negócio do dinheiro começa a gerar algum desconforto, surgem novos produtos turísticos, Washingtom e Bruxelas preparam uma parceria transatlântica de comércio e investimento, que irá revolucionar o comércio a nível mundial e nós açorianos vivemos 40 anos de experiência autonómica, etc, etc.

A nível interno e político estamos a viver o mesmo que aconteceu durante o processo autonómico de 1895. Este começou com grande dinamismo e entusiasmo, mobilizando a sociedade açoriana de então, e acabou como todos nós sabemos, em nada. No presente começamos com uma autonomia progressiva. Depois esta deu lugar a uma autonomia tranquila e, para espanto dos mais ingénuos, as instituições regionais já afirmam que é indispensável a manutenção do “património autonómico adquirido”, o que, por outras palavras, significa dizer que passamos de uma dinâmica construtiva, para uma fase estável e estamos a viver um momento de desconstrução. Como consequência tem vindo a instalar-se um grande desencanto.

Pela segunda vez a História segue o mesmo rumo. Na primeira autonomia tudo acabou em nada. Na presente autonomia, o controlo é mais sofisticado, mas na essência o resulta é mesmo. O poder nos Açores é exercido por partidos políticos que são sucursais dos partidos nacionais, logo os intervenientes locais prestam vassalagem aos nacionais para poderem sobreviver politicamente. Por outro lado, o Estado assume uma dimensão despropositada na região, intervindo no que deve e no que não deve. Com estes ingredientes temos a matéria-prima necessária para fabricar uma condição de total dependência. Os políticos regionais vão vivendo a triste ilusão de que são os detentores do poder, porém, nas questões estruturantes e essenciais, Portugal nem precisa de dar um murro na mesa para impor a sua vontade, basta que ameace retirar-lhes os seus cargos para que eles como cordeiros afinem pelo mesmo diapasão.

É importante salientar que vivemos num mundo onde, cada vez mais, temos que contar connosco e temos que estar preparados para enfrentar transformações imprevisíveis. As mudanças acontecem quando menos esperamos e, ao contrário do que seria previsível, muitas vezes tomam rumos que nunca imaginamos

Neste contexto, deixar o nosso destino nas mãos de Portugal, compromete seriamente as nossas pretensões, pois a História ensinou-nos que Lisboa quando confrontada entre as nossas necessidades e os seus desejos, nunca hesitou e optou sempre por si.

Por último temos que ter consciência que, enquanto os outros quadrantes políticos se orientam de acordo com interesses associados ao exercício do poder, nós agimos em função de aspetos estruturantes e é destes que depende o futuro dos Açores. Sendo esta a nossa natureza e tendo consciência dos perigos que corremos é nosso dever intervir.

Temos que nos mobilizar e estar em todos os locais e organizações. Devemos lutar para que exista menos Estado a condicionar a nossa vida, não que tenha algum preconceito ideológico relativamente à participação do Estado na vida dos Países, mas sim porque que este Estado em particular está estruturado para permitir o controlo da vida dos cidadãos açorianos, o que nos torna menos livres e mais fáceis de subjugar. Como consequência, o medo existe nos Açores e muitos são os momentos em que ele interfere no livre exercício da cidadania. Há que fortalecer a capacidade interventiva dos açorianos nos seus destinos libertando-os de um Estado controlador e castrador, o que nos tornará mais independentes.

Lisboa, satisfeita com a sua cadeia de controlo, não hesita em violar uma das mais elementares regras da democracia: o direito de associação, proibindo a existência de partidos regionais e de partidos ou associações que defendam a independência dos Açores. Ao contrário do que acontece nos países que formam o mundo a que Portugal diz orgulhosamente pertencer, os independentistas nos Açores são reprimidos sendo tratados como marginais que não têm direito a existir. Para Lisboa somos todos fantasmas.

Quando numa sociedade existe um grupo de cidadão que não se pode associar para defender as suas ideias, quando existe uma lei que retira a possibilidade a este mesmo grupo de participar nos atos eleitorais, então estes cidadãos não são homens livres, são cidadãos de segunda.

Sabemos porque Portugal não pretende alterar o estabelecido, porém é nosso dever junto de todos os organismos internacionais denunciar a nossa condição de cidadãos não livres e denunciar o poder de Lisboa como o responsável por um Estado que se diz democrático, mas que na sua essência defende leis mais próprias das ditaduras que condena.

Mas, por que razão Lisboa teme que nos possamos organizar politicamente? O que teme Portugal com a nossa participação politica?

A resposta é óbvia e só não vêm aqueles que estão acomodados e beneficiam com a sua condição.

Caso os independentistas açorianos tivessem acesso ao poder a cadeia de controlo montada por Lisboa seria quebrada, o que reforçaria as reivindicações regionais.

Caso tivéssemos um Governo Regional formado por partidos independentistas questões como o princípio da continuidade territorial, reforço do mercado interno, politica de transportes que permitisse um maior aproximação entre ilhas, programas específicos para a construção de um novo tecido empresarial açoriano, politicas para a fixação de populações nas ilhas que estão a desertificar, legislação que incutisse uma cultura de responsabilização politica dos nossos dirigentes, obrigando-os a colocar o interesse publico acima dos interesses partidários e pessoais, mecanismos para atrair os nossos imigrantes a regressarem e a investir na sua terra, etc, etc, todas estas questões seriam tratadas de outra forma e em vez de andarem a entreter o povo com festas e esmolas, estaríamos a criar condições para termos uma situação económica mais sustentável, o que significa dizer que seriamos mais independentes, o que não agrada a Portugal.

Lisboa diz que somos portugueses, mas depois teme que possamos fugir ao seu controlo politico. A sua atitude é reveladora de que têm consciência que de facto não somos tão portugueses como eles dizem. Portugal tem plena consciência que, no dia que conseguirmos sustentabilidade económica, eles irão perder o controlo sobre as nossas ilhas. Eles, melhor que ninguém, sabem que historicamente sempre fomos tratados em condições infra-humana e que este facto aliado a seiscentos anos de vivência insular, criou em nós uma forma particular de estar no mundo, que nos leva a querer ser donos dos nossos destinos. Somos um povo sofrido, mas orgulhoso e historicamente sempre que as circunstâncias nos foram favoráveis conquistamos poder e sonhamos com a independência. Lisboa viu como reagimos em 1820 quando algumas vozes gritaram: - Queremos ser independentes. Voltou a estar atenta em 1895, quando novamente se ouviram gritos de independência e jamais esquecerá o que aconteceu em 1975, porque verificou que já não haviam só gritos de independência, pois esta estava a acontecer.

Lisboa quer-nos marginais porque sabe que os países são construções e que a nossa intervenção irá sempre potenciar a possibilidade de podermos ser um novo país.

A história está do nosso lado. Havemos de participar no sistema, seremos maioritários na nossa região, e quando lá chegarmos lutaremos por tudo o que considerarmos ser o melhor para as nossas gentes. Se considerarmos que queremos continuar ligados a Portugal, escolheremos a forma. Se considerarmos que é melhor separar-nos, então seremos um País independente. A vontade será a nossa. No momento em que considerarmos que estamos prontos para ser um País, havemos de declarar de independência, mas este momento será aquele que escolhermos. Não compete aos outros serem os donos dos nossos destinos. Somos maiores e temos vontade própria.

Viva a vontade dos açorianos.

Viva o mundo que os açorianos querem construir para si.

Viva o Açores Livres.

domingo, 5 de junho de 2016

Quarenta e um ano depois


Por mais que se esforcem para o negar, o 6 de Junho de 1975 está para a autonomia dos Açores – e da Madeira – como 25 de Abril de 1974 para a democracia em Portugal! Para aqueles que continuam renitentes em aceitar a importância do 6 de Junho em favor do mais recente processo de desenvolvimento dos Açores, alguns deles insistindo em chamar “manifestação de lavradores” a um levantamento popular que colocou milhares de pessoas à entrada do Governo Civil de Ponta Delgada exigindo INDEPENDÊNCIA, convém avivar-lhes a memória (porque há coisas que não mudam, e ressurgem com a oportunidade) e lembrar-lhes que, já após o 25 de Abril em Portugal, o MAI da altura preparava uma nova divisão administrativa do território, transformando os Açores numa província – não podia deixar de ser ultramarina –, que com outras oito parcelas (Madeira e mais cinco províncias em “terra firme”), todas dotadas de autonomia político administrativa, corporizariam o projecto de regionalização ao tempo em curso. Só após o 6 de Junho de 1975, e em consequência directa deste – por muito que a uns quantos isto custe a admitir –, foi possível ir mais além no que aos Açores e à Madeira dizia respeito. Mas os efeitos imediatos do “6 de Junho” apareceram quase a seguir “ao grande dia”. Ainda com os gritos de INDEPENDÊNCIA ecoando bem alto em Portugal, o Conselho da Revolução, "para nos amansar", determinou como medidas a implementar nos Açores, entre outras, as seguintes: a atribuição imediata de 100.000c ao Plano Pecuário dos Açores; um significativo apoio ao sector das pescas e conservas de peixe; a urgente cobertura médica do arquipélago; e até, imagine-se, a instalação de um Secretariado Regional da Banca. Hoje, para continuar a dar sentido às conquistas do “6 de Junho”, há que persistir na luta, começando por coisas tão simples como: não ter de pedir licença a ninguém para ensinar ao Povo a que pertencemos a nossa própria História e revoltarmo-nos contra leis que nos conotam com o fascismo por defendermos a INDEPENDÊNCIA da nossa terra e/ou nos impedem de organizar em partidos aqui originários (único modo democrático de lutar, sem subtilezas, pelos nossos próprios interesses)! 6 de Junho: ontem, hoje, amanhã e sempre!