quinta-feira, 7 de junho de 2018

Europa das regiões e o papel da FLA nos Açores



06 junho 2018, Hotel VIP, Ponta Delgada




Gostava de vos falar do referendo de 1 de outubro do ano passado para a formação de uma republica independente na Catalunha, de falar-vos do sonho de uma Europa das regiões e, também, do papel da FLA no processo de tornar esse sonho realidade nos Açores.

Tenho muito orgulho em ter participado no referendo de 1 de outubro na Catalunha, uma participação individual e simples, mas também uma participação em nome da FLA e em nome do direito dos açorianos à sua autodeterminação. Na Catalunha testemunhei um povo com a certeza de estar no lado correcto da história, um povo corajoso, militante e sem medo. Um povo, pelo menos no dia do referendo, não refém de partidos ou ideologias. Um povo calculadamente pacifico, mas nunca subjugado.

A mesa de voto à qual fui dar apoio tinha cerca de uma centena de voluntários dispostos a defender as urnas. O nosso papel quando se começavam a ouvir as sirenes das carrinhas negras e prenhas de agentes da violência, era formarmos uma massa humana, compacta, contra a entrada de acesso à mesa de voto. Toda a tarde, num banco de jardim perto da porta, estavam sentadas 3 senhoras de mais idade, cabelos brancos, e um senhor da mesma geração, com os seus casacos já de inverno e seus guardas chuvas. Uma das muitas vezes que as carrinhas passaram, mas a primeira em que pararam, para meu grande espanto o grupo do banco de jardim, já depois de estarmos todos compactados em frente à porta, levantou-se e veio serenamente posicionar-se na primeira fila, a mais exposta. As pessoas pediram-lhes que se posicionassem mais a meio da massa humana, menos expostos, mas não, insistiram que ficariam na primeira fila. Uma imagem, um acto de coragem, uma entrega a uma causa, que nunca esquecerei. Aquilo que se viu na televisão foi exactamente o que testemunhei, uma Espanha centralista, colonialista, violenta, opressiva.

Mas a Espanha não está sozinha. A Europa foi também construída, em parte, tendo por base essa cultura centralista, colonialista, violenta e opressiva, uma cultura que não desaparece numa geração, nem em duas. Na minha opinião, essa não é a Europa para os Açores. Não queremos uma Europa das capitais, de Lisboa, Madrid, Paris, Berlim e Bruxelas. A nossa Europa, a Europa a que pertencemos, é uma Europa das regiões, dos povos, das línguas, da democracia. E neste momento ela já floresce por todo o continente europeu, já cheira a futuro. Nas ilhas Faroé, onde governam nacionalistas, em breve farão um reverendo para que possam possuir a sua própria constituição. Na Escócia governam os nacionalistas e por pouco não ganharam um referendo que lhes daria a independência. Na Córsega os nacionalistas ganharam as últimas eleições. Nas Canárias, onde a FLA esteve em visita oficial este ano, governam nacionalistas. Na Catalunha e noutras nações de Espanha, é o que todos sabemos. Nas ilhas da Polinésia francesa, as forças independentistas conseguiram o seu primeiro deputado eleito para a assembleia nacional francesa. Em Flandres, na Sardenha, na Bretanha francesa, na Occitânia, na Bavaria, no Tirol, na cidade estado de Veneza.... E quase sem excepção, o fortalecimento destas forças soberanistas, pela Europa fora, têm criado, nestas nações, uma dinâmica económica positiva, uma maior participação activa democrática e um enriquecimento e preservação das culturas destes povos.

Nos Açores, a constituição portuguesa, a que somos obrigados a obedecer, não permite que se dê aos açorianos uma escolha democrática que inclua partidos açorianos ou nacionalistas. Assim, neste momento, só a FLA se apresenta com clareza moral para, nos Açores, liderar essa evolução, que ocorre na Europa. Só a FLA pode levar os Açorianos a participarem na construção desta nova Europa, pois como sabemos, todos os outros, no horizonte da política nos Açores, são peças de um xadrez que se joga em Lisboa, mesmo que o tabuleiro esteja cá, e atenção, nunca são as peças do xadrez que ganham o jogo. Mas nos Açores, para a FLA, os açorianos não são peças de um jogo, são jogadores de pleno direito.

Daqui a uns dias, a dez de junho, o presidente de Portugal, um velho do Restelo, vem cá hastear uma bandeira de Portugal de 3 por 2 metros, na praça Gonçalo Velho Cabral, que Bolieiro vai fazer o favor de iluminar à noite, incrível. Um acto de puro colonialismo que os lacaios de Lisboa aceitam. Mas como velho do Restelo que é, o presidente de Portugal, como sempre se fez noutras colónias, vai enfiar na nossa carne esse símbolo de um império colonial e retorna à sua capital onde há séculos se vive à custa do que é de outros povos, que é o que pretendem fazer agora com o Mar dos Açores. Mas cuidado velhos do Restelo, aqui nos Açores, quando nos ferem sangramos lava quente, demolidora e nela renascemos, sempre…

Pois no dia 10 de junho lá estarei, na praça Gonçalo Velho Cabral, respeitosamente, mas com a nossa bandeira. Os açorianos precisam de saber que não estão sós e abandonados a essa cultura colonialista, centralista. Precisam de saber que a FLA está aqui para proteger e salvaguardar a soberania dos Açores, a cultura açoriana e os meios de sustentabilidade dos Açores.

Não tenhamos dúvidas, os Açores precisam da FLA e a FLA precisa de cada um de nós. Plagiando um presidente norte americano, digo-vos que esta não é a altura de nos perdermos na pergunta sobre o que a independência pode fazer por nós, mas sim o que podemos fazer pela independência dos Açores. E faz-se tarde. Está na hora de nos pormos a caminho porque, meus caros, a independência dos Açores não é um ponto de partida, é um ponto de chegada e, repito, para lá chegarmos os Açores precisam de cada um de nós...




Um abraço Dr. Rui Medeiros, um abraço a todos,

Viva a FLA e vivam os Açores livres.




Dr. António José de Almeida