quarta-feira, 25 de abril de 2018

Os donos da liberdade





A liberdade não tem forma especifica, não tem cor, não tem cheiro nem personalidade própria. Muitos tentarem defini-la e várias foram as ideias que daí surgiram não havendo unanimidade. Mesmo sendo um conceito muito abrangente conseguiu suscitar muitas paixões e muitas foram as pessoas que se sacrificaram por ela.

Todos os que lutaram pela liberdade têm o nosso respeito e estamos profundamente agradecidos, pois, as consequências que esta luta trouxe para as sociedades foram sempre geradoras de mundos mais justos. Porém, o facto de terem lutado não lhes confere direitos especiais, nem passaram a ter legitimidade para decidir quando é que a liberdade deve ser usada ou não. A liberdade não pode ser encarada como património de um grupo de pessoas, nem tão pouco admite que este mesmo grupo tenha direitos especiais sobre ela.
Quando a liberdade foi conquistada a 25 de abril, não ficou refém de quem a conquistou. Ela veio para todos sem condicionalismos de espécie alguma. O sistema mudou, as colónias africanas foram tornadas independentes, a imprensa passou a poder divulgar os seus conteúdos sem limitações, etc, etc. Neste novo mundo foram feitas opções e como consequência Portugal passou a integrar a União Europeia e os Açores passaram a ser uma região autónoma. Neste novo contexto, Portugal deveria adotar a cultura política dos seus pares europeus permitindo que o povo dos Açores pudesse organizar-se politicamente da forma que considerasse mais adequada, a defender as ideias que considere adequadas.
Em democracia não existem ideias de primeira e ideias de segunda, nem se pode reprimir o direito que os cidadãos têm de defender democraticamente as suas ideias, de uma forma organizada. Se assim for estamos perante uma sociedade onde a liberdade não chegou a todos, estamos perante um mundo diferente daquele a que Portugal aderiu e que orgulhosamente diz pertencer. Esta contradição é tão embaraçosa que alguns europeus ficam incrédulos quando são confrontados com este facto.
Para que abril se concretize a liberdade tem que chegar a todos. Não podemos pactuar com aqueles que aceitam que se reprimam alguns cidadãos porque eles pensam de forma diferente, porque no dia que aceitarmos isto estamos a ser cúmplices de pessoas que se comportam como aqueles que foram derrubados com o 25 de abril.

Ponta Delgada, 25 de abril de 2018
Rui Machado de Medeiros